Ado e Eva, de Machado de Assis 

Fonte: 

ASSIS, Machado de. Obra Completa. Rio de Janeiro : Nova Aguilar 1994. v. II. 

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Ado e Eva 

UMA SENHORA de engenho, na Bahia, pelos anos de mil setecentos e 
tantos, tendo algumas pessoas ntimas  mesa, anunciou a um dos convivas, 
grande lambareiro, um certo doce particular. Ele quis logo saber o que era; a 
dona da casa chamou-lhe curioso. No foi preciso mais; da a pouco estavam 
todos discutindo a curiosidade, se era masculina ou feminina, e se a 
responsabilidade da perda do paraso devia caber a Eva ou a Ado. As 
senhoras diziam que a Ado, os homens que a Eva, menos o juiz-de-fora, 
que no dizia nada, e Frei Bento, carmelita, que interrogado pela dona da 
casa, D. Leonor: 

 Eu, senhora minha, toco viola, respondeu sorrindo; e no mentia, porque 
era insigne na viola e na harpa, no menos que na teologia. 
Consultado, o juiz-de-fora respondeu que no havia matria para opinio; 
porque as cousas no paraso terrestre passaram-se de modo diferente do que 
est contado no primeiro livro do Pentateuco, que  apcrifo. Espanto geral, 
riso do carmelita que conhecia o juiz-de-fora como um dos mais piedosos 
sujeitos da cidade, e sabia que era tambm jovial e inventivo, e at amigo da 
pulha, uma vez que fosse curial e delicada; nas cousas graves, era 
gravssimo. 

 Frei Bento, disse-lhe D. Leonor, faa calar o Sr. Veloso. 

 No o fao calar, acudiu o frade, porque sei que de sua boca h de sair 
tudo com boa significao. 
 Mas a Escritura... ia dizendo o mestre-de-campo Joo Barbosa. 
 Deixemos em paz a Escritura, interrompeu o carmelita. Naturalmente, o 
Sr. Veloso conhece outros livros... 
 Conheo o autntico, insistiu o juiz-de-fora, recebendo o prato de doce 
que D. Leonor lhe oferecia, e estou pronto a dizer o que sei, se no mandam 
o contrrio. 
 V l, diga. 
 Aqui est como as cousas se passaram. Em primeiro lugar, no foi Deus 
que criou o mundo, foi o Diabo... 
 Cruz! exclamaram as senhoras. 
 No diga esse nome, pediu D. Leonor. 
 Sim, parece que... ia intervindo frei Bento. 
 Seja o Tinhoso. Foi o Tinhoso que criou o mundo; mas Deus, que lhe leu 
no pensamento, deixou-lhe as mos livres, cuidando somente de corrigir ou 
atenuar a obra, a fim de que ao prprio mal no ficasse a desesperana da 
salvao ou do benefcio. E a ao divina mostrou-se logo porque, tendo o 
Tinhoso criado as trevas, Deus criou a luz, e assim se fez o primeiro dia. No 
segundo dia, em que foram criadas as guas, nasceram as tempestades e os 
furaces; mas as brisas da tarde baixaram do pensamento divino. No terceiro 
dia foi feita a terra, e brotaram dela os vegetais, mas s os vegetais sem fruto 
nem flor, os espinhosos, as ervas que matam como a cicuta; Deus, porm, 
criou as rvores frutferas e os vegetais que nutrem ou encantam. E tendo o 
Tinhoso cavado abismos e cavernas na terra, Deus fez o sol, a lua e as 
estrelas; tal foi a obra do quarto dia. No quinto foram criados os animais da 
terra, da gua e do ar. Chegamos ao sexto dia, e aqui peo que redobrem de 
ateno. 
No era preciso pedi-lo; toda a mesa olhava para ele, curiosa. 

Veloso continuou dizendo que no sexto dia foi criado o homem, e logo 
depois a mulher; ambos belos, mas sem alma, que o Tinhoso no podia dar, 
e s com ruins instintos. Deus infundiu-lhes a alma, com um sopro, e com 
outro os sentimentos nobres, puros e grandes. Nem parou nisso a 
misericrdia divina; fez brotar um jardim de delcias, e para ali os conduziu, 
investindo-os na posse de tudo. Um e outro caram aos ps do Senhor, 
derramando lgrimas de gratido. "Vivereis aqui", disse-lhe o Senhor, "e 
comereis de todos os frutos, menos o desta rvore, que  a da cincia do 
Bem e do Mal." 

Ado e Eva ouviram submissos; e ficando ss, olharam um para o outro, 
admirados; no pareciam os mesmos. Eva, antes que Deus lhe infundisse os 
bons sentimentos, cogitava de armar um lao a Ado, e Ado tinha mpetos 
de espanc-la. Agora, porm, embebiam-se na contemplao um do outro, 
ou na vista da natureza, que era esplndida. Nunca at ento viram ares to 
puros, nem guas to frescas, nem flores to lindas e cheirosas, nem o sol 
tinha para nenhuma outra parte as mesmas 
torrentes de claridade. E dando as mos percorreram tudo, a rir muito, nos 
primeiros dias, porque at ento no sabiam rir. No tinham a sensao do 


tempo. No sentiam o peso da ociosidade; viviam da contemplao. De tarde 
iam ver morrer o sol e nascer a lua, e contar as estrelas, e raramente 
chegavam a mil, dava-lhes o sono e dormiam como dous anjos. 

Naturalmente, o Tinhoso ficou danado quando soube do caso. No podia 
ir ao paraso, onde tudo lhe era avesso, nem chegaria a lutar com o Senhor; 
mas ouvindo um rumor no cho entre folhas secas, olhou e viu que era a 
serpente. Chamou-a alvoroado. 

 Vem c, serpe, fel rasteiro, peonha das peonhas, queres tu ser a 
embaixatriz de teu pai, para reaver as obras de teu pai? 
A serpente fez com a cauda um gesto vago, que parecia afirmativo; mas o 
Tinhoso deu-lhe a fala, e ela respondeu que sim, que iria onde ele a 
mandasse,  s estrelas, se lhe desse as asas da guia  ao mar, se lhe 
confiasse o segredo de respirar na gua  ao fundo da terra, se lhe ensinasse 

o talento da formiga. E falava a maligna, falava  toa, sem parar, contente e 
prdiga da lngua; mas o diabo interrompeu-a: 
 Nada disso, nem ao ar, nem ao mar, nem  terra, mas to-somente ao 
jardim de delcias, onde esto vivendo Ado e Eva. 
 Ado e Eva? 
 Sim, Ado e Eva. 
 Duas belas criaturas que vimos andar h tempos, altas e direitas como 
palmeiras? 
 Justamente. 
 Oh! detesto-os. Ado e Eva? No, no, manda-me a outro lugar. Detestoos! S a vista deles faz-me padecer muito. No hs de querer que lhes faa 
mal... 
  justamente para isso. 
 Deveras? Ento vou; farei tudo o que quiseres, meu senhor e pai. Anda, 
dize depressa o que queres que faa. Que morda o calcanhar de Eva? 
Morderei... 
 No, interrompeu o Tinhoso. Quero justamente o contrrio. H no jardim 
uma rvore, que  a da cincia do Bem e do Mal; eles no devem tocar nela, 
nem comer-lhe os frutos. Vai, entra, enrosca-te na rvore, e quando um deles 
ali passar, chama-o de mansinho, tira uma fruta e oferece-lhe, dizendo que  
a mais saborosa fruta do mundo; se te responder que no, tu insistirs, 
dizendo que  bastante com-la para conhecer o prprio segredo da vida. 
Vai, vai... 
 Vou; mas no falarei a Ado, falarei a Eva. Vou, vou. Que  o prprio 
segredo da vida, no? 
 Sim, o prprio segredo da vida. Vai, serpe das minhas entranhas, flor do 
mal, e se te sares bem, juro que ters a melhor parte na criao, que  a 
parte humana, porque ters muito calcanhar de Eva que morder, muito 
sangue de Ado em que deitar o vrus do mal... Vai, vai, no te esqueas... 
Esquecer? J levava tudo de cor. Foi, penetrou no paraso, rastejou at a 
rvore do Bem e do Mal, enroscou-se e esperou. Eva apareceu da a pouco, 
caminhando sozinha, esbelta, com a segurana de uma rainha que sabe que 
ningum lhe arrancar a coroa. A serpente, mordida de inveja, ia chamar a 
peonha  lngua, mas advertiu que estava ali s ordens do Tinhoso, e, com a 


voz de mel, chamou-a. Eva estremeceu. 

 Quem me chama? 
 Sou eu, estou comendo desta fruta... 
 Desgraada,  a rvore do Bem e do Mal! 
 Justamente. Conheo agora tudo, a origem das coisas e o enigma da vida. 
Anda, come e ters um grande poder na terra. 
 No, prfida! 
 Nscia! Para que recusas o resplendor dos tempos? Escuta-me, faze o que 
te digo, e sers legio, fundars cidades, e chamar-te-s Clepatra, Dido, 
Semramis; dars heris do teu ventre, e sers Cornlia; ouvirs a voz do 
cu, e sers Dbora; cantars e sers Safo. E um dia, se Deus quiser descer  
terra, escolher as tuas entranhas, e chamar-te-s Maria de Nazar. Que mais 
queres tu? Realeza, poesia, divindade, tudo trocas por uma estulta 
obedincia. Nem ser s isso. Toda a natureza te far bela e mais bela. Cores 
das folhas verdes, cores do cu azul, vivas ou plidas, cores da noite, ho de 
refletir nos teus olhos. A mesma noite, de porfia com o sol, vir brincar nos 
teus cabelos. Os filhos do teu seio tecero para ti as melhores vestiduras, 
comporo os mais finos aromas, e as aves te daro as suas plumas, e a terra 
as suas flores, tudo, tudo, tudo... 
Eva escutava impassvel; Ado chegou, ouviu-os e confirmou a resposta 
de Eva; nada valia a perda do paraso, nem a cincia, nem o poder, nenhuma 
outra iluso da terra. Dizendo isto, deram as mos um ao outro, e deixaram a 
serpente, que saiu pressurosa para dar conta ao Tinhoso. 

Deus, que ouvira tudo, disse a Gabriel: 

 Vai, arcanjo meu, desce ao paraso terrestre, onde vivem Ado e Eva, e 
traze-os para a eterna bem-aventurana, que mereceram pela repulsa s 
instigaes do Tinhoso. 
E logo o arcanjo, pondo na cabea o elmo de diamante, que rutila como 
um milhar de sis, rasgou instantaneamente os ares, chegou a Ado e Eva, e 
disse-lhes: 

 Salve, Ado e Eva. Vinde comigo para o paraso, que merecestes pela 
repulsa s instigaes do Tinhoso. 
Um e outro, atnitos e confusos, curvaram o colo em sinal de obedincia; 
ento Gabriel deu as mos a ambos, e os trs subiram at  estncia eterna, 
onde mirades de anjos os esperavam, cantando: 

 Entrai, entrai. A terra que deixastes, fica entregue s obras do Tinhoso, 
aos animais ferozes e malficos, s plantas daninhas e peonhentas, ao ar 
impuro,  vida dos pntanos. Reinar nela a serpente que rasteja, babuja e 
morde, nenhuma criatura igual a vs por entre tanta abominao a nota da 
esperana e da piedade. 
E foi assim que Ado e Eva entraram no cu, ao som de todas as ctaras, 
que uniam as suas notas em um hino aos dous egressos da criao... 

... Tendo acabado de falar, o juiz-de-fora estendeu o prato a D. Leonor 
para que lhe desse mais doce, enquanto os outros convivas olhavam uns para 
os outros, embasbacados; em vez de explicao, ouviam uma narrao 
enigmtica, ou, pelo menos, sem sentido aparente. D. Leonor foi a primeira 
que falou: 


 Bem dizia eu que o Sr. Veloso estava logrando a gente. No foi isso que 
lhe pedimos, nem nada disso aconteceu, no , frei Bento? 
 L o saber o Sr. juiz, respondeu o carmelita sorrindo. 
E o juiz-de-fora, levando  boca uma colher de doce: 
 Pensando bem, creio que nada disso aconteceu; mas tambm, D. Leonor, 
se tivesse acontecido, no estaramos aqui saboreando este doce, que est, na 
verdade, uma cousa primorosa.  ainda aquela sua antiga doceira de 
Itapagipe? 
FIM 


